
Tortura

"Tirar dentro do peito a Emoção, A lúcida Verdade, o Sentimento! -- E ser, depois de vir do coração, Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento, E puro como um ritmo de oração! -- E ser, depois de vir do coração, O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Florbela Espanca
Postado por: Secret Eyes às 18h51
[
]
[
envie esta mensagem ]
Desejo

"Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;
Se a fronte pura e serena
Brilhasse d'inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;
Se a voz fosse harmoniosa
Como d'harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;
E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;
E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!"
Casimiro de Abreu
Postado por: Secret Eyes às 17h26
[
]
[
envie esta mensagem ]
Uma grande surpresa
Que honra e alegria receber um
destaque tão lindo como esse!

   

Feliz Aquele
"Feliz aquele a quem a vida grata Concedeu que dos deuses se lembrasse E visse como eles Estas terrenas coisas onde mora Um reflexo mortal da imortal vida. Feliz, que quando a hora tributária Transpor seu átrio por que a Parca corte O fio fiado até ao fim, Gozar poderá o alto prêmio De errar no Averno grato abrigo Da convivência. Mas aquele que quer Cristo antepor Aos mais antigos Deuses que no Olimpo Seguiram a Saturno — O seu blasfemo ser abandonado Na fria expiação — até que os Deuses De quem se esqueceu deles se recordem — Erra, sombra inquieta, incertamente, Nem a viúva lhe põe na boca O óbolo a Caronte grato, E sobre o seu corpo insepulto Não deita terra o viandante. "
Ricardo Reis

Postado por: Secret Eyes às 13h29
[
]
[
envie esta mensagem ]
Ferida

fer ida sem ferida tudo começa de novo a cor cora a flor o ir vai o rir rói o amor mói o céu cai a dor dói
Agusto de Campos

Postado por: Secret Eyes às 12h22
[
]
[
envie esta mensagem ]
Não sei quantas almas tenho

"Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que sogue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu. "
Fernando Pessoa
Postado por: Secret Eyes às 20h03
[
]
[
envie esta mensagem ]
****Atitude****

"Minha esperança perdeu seu nome
Fechei meu sonho, para chamá-la
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala
O último passo do destino
passará sem forma funesta
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.
Meus olhos estarão sob os espelhos,pensado
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes
E um campo de entrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes"
****Cecília Meireles****
Postado por: Secret Eyes às 20h37
[
]
[
envie esta mensagem ]
Este inferno de amar

Este inferno de amar- como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma...quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida e que a vida destrói
Como é que se veio a atea
Qunado- ai se há de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra; o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho talvez… — foi um sonho — Em que paz tão serena a dormi! Oh! que doce era aquele sonhar… Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso Eu passei… dava o Sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Que fez ela? Eu que fiz? — Não no sei Mas nessa hora a viver comecei…
****Almeida Garret****
Postado por: Secret Eyes às 18h35
[
]
[
envie esta mensagem ]
|